O texto abaixo relata de como um simples agente técnico no
Banco Pinto de Magalhães se torna um dos homens mais ricos de Portugal. A maioria das pessoas pensa que a fortuna de Belmiro de Azevedo veio de heranças ou coisa no género.
Segundo o relato Belmiro de Azevedo fora militante da UDP
(União Democratica Popular) e e era uma especie de coordenador da CT
(comissão de trabalhadores) que controlava o banco.
Foi assim que muitos espertalhões no calor do verão quente de
74/75 se tornaram donos e senhores de muitas empresas sem mexerem uma
palha e enquanto os trabalhadores andavam na luta nas ruas a defender os
seus direitos, os mesmos manobravam na sombra e por isso é que o 25 de
Abril que foi uma esperança para o povo e para os trabalhadores deu no
que deu e chegamos ao último reduto dos tesos.
Quando,
em 14 de Março de 1975, o governo de Vasco Gonçalves nacionalizou a
banca com o apoio de todos os partidos que nele participavam (PS, PPD e
PCP), todo o património dos bancos passou a propriedade pública.
O Banco
Pinto de Magalhães (BPM) detinha
a SONAE, a única produtora de termolaminados, material muito usado na
indústria de móveis e como revestimento na construção civil.
Dada a sua
posição monopolista, a SONAE constituía a verdadeira tesouraria do BPM,
pois as encomendas eram pagas a pronto e, por vezes, entregues 60, 90 e
até 180 dias depois. Belmiro de Azevedo trabalhava lá como agente
técnico (agora engenheiro técnico) e, nessa altura, vogava nas águas da
UDP.
Em plenário, pôs os trabalhadores em greve com a reclamação de a
propriedade da empresa reverter a favor destes. A União dos Sindicatos
do Porto e a Comissão Sindical do BPM (ainda não havia CTs na banca)
procuraram intervir junto dos trabalhadores alertando-os para a situação
política delicada e para a necessidade de se garantir o fornecimento
dos termolaminados às actividades produtoras.
Eram recebidas por Belmiro
que se intitulava “chefe da comissão de trabalhadores”, mas a greve só
parou mais de uma semana depois quando o governo tomou a decisão de
distribuir as acções da SONAE aos trabalhadores proporcionalmente à
antiguidade de cada um.
É
fácil imaginar o panorama.
A bolsa estava encerrada e o pessoal da
SONAE detinha uns papéis que, de tão feios, não serviam sequer para
forrar as paredes de casa… Meses depois, aparece um salvador na figura
do chefe da CT que se dispõe a trocar por dinheiro aqueles horrorosos
papéis.
Assim se torna Belmiro de Azevedo dono da SONAE.
E leva a mesma técnica de
tesouraria para a rede de supermercados Continente depois criada onde
recebe a pronto e paga a 90, 120 e 180 dias…
Há
meia dúzia de anos, no edifício da Alfândega do Porto, tive
oportunidade de intervir num daqueles debates promovidos pelo Rui Rio
com antigos primeiros-ministros e fiz este relato.
Vasco Gonçalves não
tinha ideia desta decisão do seu governo, mas não a refutou, claro.
Com o
salão pleno de gente e de jornalistas, nenhum órgão da comunicação
social noticiou a minha intervenção.
Este
relato foi-me feito por colegas do então BPM entre eles um membro da
comissão sindical (Manuel Pires Duque) que por várias vezes se deslocou
na altura à SONAE para falar aos trabalhadores. Enviei-o para os jornais
e, salvo o já extinto “Tal & Qual”, nenhum o publicou…
Gaspar Martins, bancário reformado, ex-deputado
