terça-feira, 19 de março de 2013

Há Mais Africanos Hoje na Europa do que Europeus em África, Porquê?!

Há dias a caminho do Hojy-yá-Henda, a bordo (como habitual) de um dos machimbombos da TCUL Viana vila – Cuca, (privilegio este meio de transporte por ser o mais barato e acessível aos pobres para rotas longas, mau grado a ‘sardinhada e a catingada’), um dos vários azulinhos que ‘palmilham’ as nossas estradas, os nossos emblemáticos táxis colectivos, chamou a atenção do público, exibindo no seu ‘traseiro’ o seguinte dístico; 

DEUS È BRANCO, MULATO É ANJO, PRETO È DIABO. 

Tal dístico é obvio levantou as mais diversas celeumas entre os passageiros do machimbombo e creio entre todos os ‘observadores’ e transeuntes por onde o dito azulinho (mini mbombó) ‘rasgava’ o seu ‘popó-show’.

Raciocinei com os meus botões e os meus botões comigo, as causas que levaram o proprietário do ‘popó’ ou do ‘chauffeur de praça’ a mencionar e exibir tal ‘desgraçado ou ditoso (?!)‘ rótulo. Na busca mental das ‘causas’, não pude deixar de comparar o modo de vida de hoje e o da administração colonial, quando o País e a grossa maioria dos países do continente Africano, era administrado por indivíduos maioritariamente de raça branca, provenientes da Europa, “os tais colonos”, poderia Africa ser comparada a um paraíso? A quem diga que sim, e eu não discordo dele!
“Colonialismo caiu na lama!” Lembram-se deste célebre estribilho 1974-1977?

A JOÌA COLONIAL
Angola, era mundialmente conhecida como a Joia do império Português e exibia majestosa, todos os pergaminhos de tal título, o Quénia a par da Africa do Sul, a joia Africana do império Britânico, Algéria a joia Africana do império Francês e o antigo Congo-Belga a joia do mini-imperio Belga. 
Tais países Africanos – no contexto do outrora – prosperavam a olhos vistos (a maioria deles encontravam-se ainda na idade da pedra), as respectiva comunidades autóctone idem em aspas, os índices de desenvolvimento humano dos autóctones inegavelmente estavam lenta e seguramente subindo, as obras dos colonialistas ainda perduram pela Africa adentro. 

Verdade seja dita, o esclavagismo e as guerras de “kwata-kwata” fizeram irremediáveis estragos em África. Mas também não é menos verdade, que a falta de unidade, ambição, irresponsável individualismo e a sempre necessidade de estupida e insanamente guerrearem, fazerem verter sangue(entre nós Africanos), tornaram bem-vinda “la pax romana” isto é promulgado a força do chicote e da bala, pelos Europeus. 

As então, gerações de jovens africanos instruídos (pelas respectivas franjas ou instituições da administração colonial) organizaram-se politicamente e fizeram soar a acusação de que os Europeus estavam a sugar as riquezas do solo pátrio em benefício exclusivo das nações colonizadoras, desconsiderando totalmente os interesses dos nativos e das colonias, transformando os autóctones em miseráveis na sua própria terra; “eles vieram com a Bíblia, nós tínhamos as terras, no fim eles ficaram com as terras e nós com a Bíblia” disse Robert Mugabe, nacionalista e guia da libertação do Zimbabwe. Organizaram-se contra o invasor, protestos, revoltas, guerras, chacinas, a história regista que o movimento e actuação dos ‘mau-mau’ liderado pelo indomável Jomo Keniata, foi um dos mais cruéis de Africa e o que chamou a atenção da comunidade internacional, para a necessidade da urgente descolonização de Africa. Claro a violência gera violência, os resultados hoje fazem parte da história. 

A resposta colonial á violência nacionalista africana, sempre foi comedida, por exemplo, se a força policial Portuguesa no 4 de Fevereiro e posteriormente no 12 de Março de 1961, respondesse com o mesmo demonismo com que o MPLA ‘respondeu’ ao chamado Fraccionismo do 27 de Maio 1977, muitos dos actuais dirigentes, não existiriam, e provavelmente não haveria movimentos de libertação, durante muito tempo.

O ÊXODO
Passado cerca de meio seculo, que a maioria dos países Africanos ‘arrancaram’ na ponta da espingarda a independência das potências colonizadoras (seguindo a lição do camarada Mao Tsé-Tung), se fizermos o balanço, quais foram os ganhos que os respectivos países e povos obtiveram, poucos são os Países Africanos que diremos, saíram indiscutivelmente a ganhar.

“Quando é que a independência afinal vai acabar?”- Indagou desesperado/desapontado um septuagenário angolano nos idos anos 78-80, fatigaderrimo da guerra estupida, de tanta crueldade e injustiça praticada pelos seus patrícios (do regime e da oposição), denominados de nacionalistas de primeira água. Poderia Africa ser hoje comparada ao Inferno ou ao Purgatório?

Qualquer um deles serve, Paraíso; NUNCA.

Pouquíssimos países Africanos (menos do que os dedos de uma mão) podem aproximarem-se a tal eleição. “HOJE até a Bíblia tiraram-nos, e as terras continuam a não pertencer ao povo” – sintetizou Morgan Tchavingirai, descrevendo a desgraçada e extrema penúria do povo zimbabweano, respondendo ao guia imortal ainda vivo, que diz ter ressuscitado mais vezes que o próprio Jesus Cristo. Zimbabwe no período citado por Bob Mugabe, era o celeiro de África, o povo era detentor de um dos mais elevados IDH do continente.

Por exemplo em Angola. Por vezes quando nas datas históricas, oiço e vejo pela TV, indivíduos a mencionarem o que o ‘colono nos faziam’, sinceramente não sei se, choro de raiva ou se me mato de ‘risada’, “porque o colono fazia…blá-blá-blá” – dizem eles – hoje faz-se o pior. O colono se fez, quase que o desculpo, é ou foi colono, é branco não é meu irmão de raça, etc., agora quando o meu irmão Angolano, preto como eu, (ex-companheiro da miséria e das ruas da amargura) faz o que viva e denodadamente repudiávamos do colono, esta ultima ação dói muitíssimo mais do que a ação anterior, dilacera e mutila impiedosamente a alma.

Por isso, logo após as independências Africanas, verificou-se o segundo êxodo – o primeiro foi dos brancos a abandonarem África – milhões de Africanos, abandonaram com angústia na alma e os olhos arrebitados de descrença a Africa, a maioria arriscando literalmente as suas vidas (o filme continua até aos nossos dias), seguindo os outrora colonos, porque chegaram a conclusão que afinal não é verdade o que apregoa o político Africano; “eles prometeram-nos o paraíso e dão-nos o inferno a dobrar” disse um jovem africano em Lisboa nos anos 78-80 num programa da RTP.


A JUSTIÇA EUROPEIA
Os Europeus, muitos deles depois de chacinados em Africa pelas revoltas africanas, de regresso aos respectivos países embora destroçados de dor e amargura, receberam de braços abertos muitos dos antigos carrascos, dando-lhes um lar e emprego decente e uma vida digna, que jamais tiveram nos países de origem; Paz e sossego duradouro. O contrario era possível?… Se ainda hoje 37 anos depois do fim da colonização, os dirigentes Angolanos (por exemplo) ainda desculpam-se na presença colonial Portuguesa em Angola, para justificar a Pobreza e outros pesares que “estamos com ele” eles não são, nunca serão culpados,mas o colono (37 anos depois), SIM, estou seguro que, quando Angola festejar o 50º aniversário, os dirigentes Angolanos, ainda estarão a rogar pragas ao colono Português.

HOJE ouvimos falar de relatos arrepiantes de governação de ‘preto-para-preto’em muitos países africanos;Incompetência criminosa, bajulação estupida como doutrina, ganância e egoísmo exacerbado (primeiro eu – sempre),mentira como regra, assassinatos indiscriminados, prisões em massa, inexistência de liberdade de expressão – a ‘Bíblia’ citado pelo Morgan Tchavingirai. – (inclusive, gritar; “estou com fome” é crime passível de perder a vida. Kamulingue e Kassule, são a prova viva do facto), vida miserável, falta de empregos, corrupção endémica, justiça injusta e totalmente parcial, cadeias (horrorosamente infernais) a abarrotar de jovens provenientes das classes desfavorecidas, hospitais que mais parecem hospícios, escolas que mais parecem pocilgas etc. etc.
O paradoxo, é, se HOJE em África, usufruímos de um bocadinho de liberdade com sabor a vida, é precisamente graças aos Europeus, isto é aos brancos, que desenvolveram uma nova ordem de conduta internacional e instituições internacionais que vigiam sobre o globo incluindo obviamente Africa.

As sanções internacionais e outras medidas de contenção paira sobre os dirigentes Africanos, e então, estes por sua vez, fingem praticar a democracia, não porque eles gostam da democracia,porque temem o “deus branco e o seu braço punitivo”. Porque se dependêssemos totalmente dos governos de “preto-para-preto” seguramente, não seria possível viver, na vasta maioria dos países Africanos. O protótipo Africano da UE (União Europeia) a chamada UA (União Africana) é uma mentira descabida, a UA é uma instituição falida, decrépita, débil e‘estaladiça’ (como a bolacha ‘chinesa’ de água e sal) que ninguém leva a sério, uns poucos países africanos esforçam-se por dar credibilidade a UA e ao continente, houve até quem propusesse a seguinte designação DUA (DesUnião Africana), por exemplo quando teremos um Tribunal Internacional Africano? Se os tribunais da maioria dos Países membros é do “faz de conta”, os Africanos instituíram também uma espécie risível de Parlamento Africano, que ações pratica tal PA já desenvolveu em beneficio dos Africanos?

A UA é um club de “compadres” velhacos ditadores, egoístas que sonham com Paris, Londres, Estocolmo etc, ao mesmo tempo que transformam os respectivos países em autênticos ‘buracos negros’. As independências em Africa foram ‘feitas’ para algumas centenas de indivíduos africanos, em detrimento de centenas de milhões, cada vez mais miseráveis. Nunca a Europa ‘recebeu’ tanta riqueza de Africa como após a chamada “independência dos Países Africanos”, os novos-ricos africanos, apressam-se a ‘esconderem’ os produtos da sua criminosa delapidação na Europa para o gaudio dos Europeus, contrariando aquilo que eles próprios evocaram e prescreveram na convocação para a luta de libertação nacional.

“Eu ir a Portugal algum dia?.. NUNCA!.. Nem morto!”.- (1980 na idade de ouro do partido único) Disse, erguendo o punho direito bem alto em sinal de sacro-juramento, em pleno comício em Benguela, um dos então carismáticos dirigentes da “Revolução Angolana” que prescindo de citar o nome, hoje ele próprio, não só é frequentador assíduo e brioso de Portugal e “empresário português” como também é o orgulhoso presidente de uma agremiação desportiva portuguesa em Angola. Quase meio século depois, podemos dizer que o IDH dos povos africanos subiu ou regrediu? Somos melhores tratados hoje pelos nossos irmãos dirigentes? Os ideais que nortearam a luta de libertação colonial ainda estão vivos e recomendam-se? Muitos dos nossos jovens usam orgulhosamente tecnologia de ponta os ipod, ‘aichatissa’ e ‘aipad’ fazem a banga da juventude, mas o meio que lhes rodeia é nauseabundo e desolador. O Stress agudo e o AVC matam tanto quanto a malária.

FILANTROPOS DA HUMANIDADE
A mais recente iniciativa de alguns dos milionários do planeta, comoveu muita gente. Há algum Africano entre os homens que protagonizaram tal feliz iniciativa? Todos eles (os citados filantropos) são homens que dedicaram a maior parte da sua vida na produção de riqueza, não o ‘tiraram’ de algum saco azul, nem tão pouco delapidaram o erário público nacional, mas, sentiram-se na necessidade de “repartir com o necessitado” de todo o mundo. Ontem, os milionários Africanos orgulhavam-se de ‘aparecerem’ na revista forbes e congéneres, hoje face a iniciativa acima mencionada, publicam como que envergonhados; “não somos milionários” chegam ao ponto alguns de dizerem que o que têm é produto do salário.

AFRICA DO SUL
Fiquei arrepiado com as imagens da actuação da polícia Sul-Africana em Dobsonville (será esta a cidade?!) que vitimou o jovem moçambicano Mido Macia (MM), na flor da sua juventude (27 anos). Imagens próprias de uma ‘cena’ do Faroeste no seculo XIX ou da era do Drácula no país da Draculândia. Quando vivi na Africa do Sul, tinha um medo atroz e justificado da polícia Sul-africana, principalmente dos pretos. A maioria do polícia Sul-africano preto chega a ser muito mais impiedoso e selvático que o mais impiedoso policia Sul-Africano branco. O polícia preto (na sua maioria) é absolutamente xenófobo, perverso, contra a lei, corrupto e desalmado.O policia branco, estou certo não faria tal coisa, e muito menos os tais policiais pretos fariam isso se MM fosse branco.

A xenofobia na Africa do Sul, é extremamente incentivada e alimentada pela polícia Sul-africana e é planificada nas esquadras de polícia, um dia hei-de descrever as minhas experiencias com a corporação policial daquele País, que apesar dos pesares amo muito sinceramente. Fizeram certamente Nelson Mandela, banhar-se em lágrimas. O único Preto que chegou aos patamares dos ‘deuses’.

AFINAL QUEM CAIU NA LAMA?
Há em algum país da Europa, a amálgama descriminada e promiscua, esgoto a céu aberto, suja e podre de ‘bairros’ que vimos e vemos principalmente nas periferias das capitais Africanas (quase todas elas) principalmente dos chamados; País Especial. Os dirigentes Africanos, nem conseguem combater eficazmente o mosquito, causa do paludismo e malária que dizima á meio século, diariamente milhares de almas (principalmente crianças) pelo continente adentro, as doenças diarreicas (produto da falta de sanidade básica) faz de igual modo uma ‘ceifa’ aterradora.

Doenças que o colono quase já tinha debelado como a mosca do sono, ameaçam ‘engolir’ povos inteiros. Tudo isso acontece perante a pecaminosa insensibilidade de um grupinho de “iluminados africanos” (abençoados pelas igrejas) que preferem comprarem castelos de milhões de Euros na Europa e em orgias depravadas (preferem dar de comer os cães), do que ajudar os seus irmãos, que não lhes pede mais do que apenas:

BOA GOVERNAÇÃO…
Gerirem o erário público para o bem de TODOS e da nação. E há quem tem o desplante de vir a público protagonizar uma perversa peça teatral, choramingando; “O colono blá-blá-blá”. Quanto ao anjo, prefiro não comentar. Deus é Branco?.. Até posso aceitar, porem de uma coisa estou certo, preto, é que não é de certeza ABSOLUTA!

Isomar Pedro Gomes, (Artigo publicado aqui)

segunda-feira, 18 de março de 2013

O Testamento Vital

José Sócrates não foi a causa da nossa desgraça. 

Pelo contrário, José Sócrates foi o resultado, o produto final, gerado por um sistema político e educativo ineficiente, iníquo e corrompido. O nosso problema é estrutural e tem a ver sobretudo com a forma como nos organizámos. 

Como todos sabemos, o novo regime privilegiou sempre o amiguismo e o compadrio ao mérito que, durante muitos anos, identificou com o antigo regime. Pessoa competente e séria era, inevitavelmente, apelidada de fascista. As escolas, recorde-se, onde se formaram estas gerações, foram tomadas de assalto pelos alunos mais medíocres que expulsaram os bons professores e os substituíram por alunos com o 5º e o 7º ano de liceus cujo único objectivo era nivelar tudo por baixo. 

Ainda hoje o nosso ensino privilegia os piores alunos e sacrifica os melhores, sentindo-se subjacente em todo o sistema de ensino público um desprezo incontido pelos alunos mais brilhantes e mais inteligentes. E é precisamente a gente que nasceu e cresceu neste caldo de cultura que ainda hoje domina os sindicatos de professores e o sistema político.Ou seja, todos os poderes decisórios estão hoje na mão de gente medíocre e comprometida com quem lá os colocou. 

Tal como num clube desportivo, ninguém pode esperar bons resultados quando se colocam a jogar os afilhados e se sacrificam os bons jogadores. E, no nosso país, nos últimos quarenta anos, só têm jogado os afilhados que, por sua vez, se empenham na eleição de equipas técnicas pouco qualificadas mas que lhes garantem o lugar na equipa. 

Está tudo viciado. 

É assim nas câmaras, nas direcções-gerais, nos serviços públicos, nas empresas públicas, nos partidos políticos, nas forças de autoridade, nos tribunais, nos órgãos de comunicação social, nas escolas, nas universidades…

Este regime é um doente onde o tumor maligno da corrupção, do compadrio, da incompetência e da mediocridade se espalhou e ganhou metástases em todos os órgãos. E um doente assim não tem qualquer hipótese de cura.

Aliás, neste momento, a nossa vida é puramente artificial e deve-se exclusivamente ao ventilador da troika. Mas esta situação não se pode manter eternamente. Toda agente sabe que o doente não vai conseguir sair do estado vegetativo em que caiu. As medidas do Governo visam apenas convencer a troika a manter o ventilador ligado por mais algum tempo. 

Mas o doente, em boa verdade, já está morto. Só falta mesmo dar a ordem para desligar a máquina.

Artigo de Santana-Maia Leonardo, em "Cartas à Directora", no Público de hoje.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Marx e a Vanessa

Como é sabido, o marxismo conjura um enredo linear em que, no fim da história, a classe operária derrota a burguesia e instala a sociedade sem classes. 

Noutras escatologias semelhantes, S. Jorge mata o Dragão, o Messias julgará os vivos e os mortos, o Mhadi aterrará em Teerão, etc, etc.

Tudo se joga num final cataclísmico que acabará com o mal e trará a felicidade eterna. 

No capítulo 32 de Das Kapital, Marx prevê um gigantesco ajuste de contas com o capitalismo, muito parecido com o juízo final do cristianismo e com a morte de Brunilde e Siegfried e o cataclismo da Valhalla (no Anel dos Nibelungos, de Wagner). Acontecimentos redentores que libertarão por fim os bons de mefistofélicos pactos faustianos com o dinheiro e o ouro, em Marx, Jesus e no Anel dos Nibelungos. 

Mesmo aqueles que não leram Marx, por vezes imaginam também um mundo onde omniscientes e angélicos planeadores abolem a miséria, deixando intactas a liberdade e o individualismo, pondo toda a gente a tocar harpa, a cheirar a tomilho e a comer bife de lombo todos os dias.

Esta necessidade de acreditar, parece pois ser universal. Se não é nos Deuses propriamente ditos, é no Professor Chibanga, no Engenheiro Sócrates, no Passos, no D. Sebastião, no Santo Obama, no Tio Adolfo, no Karl Marx, etc, etc.

Quanto a este último, o busílis da questão é que a classe operária nunca esteve à altura da sua missão histórica. Os "operários avançados" de que falava Trostky, baldaram-se à chamada. O bom do Lenine, coçando a cabeça e perguntando "Que Fazer?", chegou à conclusão de que havia que organizar uma vanguarda activa (o Partido Comunista) que representasse e espicaçasse estes malandros.

Devo dizer-vos que compreendo perfeitamente o Senhor Vladimir. 

Ainda há dias estive a beber uma imperial e a comer uns tremoços com um amigo da classe operária e o tipo, além de nunca ter ouvido falar na ditadura do proletariado, nem na sua missão histórica, apresentou-me os seguintes projectos (pouco) revolucionários: 

-Arranjar bilhetes para o Benfica-Bordéus; 
-Conseguir endrominar a Vanessa que, por acaso, é bem jeitosa; 
-Trocar os pneus ao carro. (os da frente estão completamente carecas); 
-Beber mais uma imperial. (já íamos na 3ª); 
-Apanhar uma carraspana das antigas na despedida de solteiro do Quim. 

Ora com gente desta, gente com uma desavergonhada tendência para a burguesice e para a rebaixolice, gente que prefere aconchegar o fofo à Vanessa em vez de lutar firmemente contra as mais valias e o Grande Capital financeiro, especulador e neoliberal, não há Revolução que avance.

Por: José António Rodrigues Carmo

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Será o capitalismo responsável pelas nossas agruras?

Há 150 anos, o Tio Marx disse que vinha já aí a famosa crise final do capitalismo. 

Não veio, mas isto é como a História do Messias: os crentes estão sempre a ver sinais da quebra do 7º selo.
 
Eles andam aí outra vez, esgazeados como há 100 anos, berrando os mesmos slogans apocalípticos e acusando o capitalismo, esse Demónio, de todos os males. Estamos numa crise e como sempre, a culpa é do Belzebu, perdão, do capitalismo, que agora já não é só capitalismo mas ganhou adjectivos cataclísmicos como "selvagem", "neoliberal", "ultraliberal", etc.
 
Será o capitalismo responsável pelas nossas agruras?

Se nos sentarmos e pararmos de berrar os versículos da tontice, facilmente percebemos que o capitalismo é, até à data, em toda a história da humanidade, o melhor sistema que inventámos para criar riqueza, bens e serviços.

Não é bom nem mau, assenta apenas na liberdade que nos dá de fazer as nossas própria escolhas, sejam elas certas ou erradas. Uns escolhem bem, outros escolhem mal mas, como a realidade comprova, num mundo racional a maioria das pessoas faz as escolhas certas para a sua vida.

Então porque chegámos aqui? Porque andam todos estes tontos a declamar um vademecum que já estava enterrado no baú dos tesourinhos deprimentes?

Porque o Estado distorceu o mercado.

1- A inundação do crédito barato, sob a batuta da Reserva Federal americana, no rescaldo do crash das dot.com.

2-A decisão política da Administração Clinton de, através das agências Fanny Mae e Freddie Mac, conceder triliões de dólares de crédito de risco, garantidos por hipotecas sem valor. A ideia de Clinton era garantir que todos os americanos pudesse ser proprietários da sua casas, mesmo que não pudessem pagar por elas.

Estas hipotecas incentivadas pelo governo federal e, por isso, tacitamente aceites como garantidas por ele, serviram de base à criação de imensos derivados, vendidos e revendidos numa pura lógica de mercado. É assim que funciona o capitalismo...constrói bens a partir dos materiais que tem à disposição e foi o governo que lhe colocou na mesa os materiais adulterados.

Mas deve condenar-se o cabrito por comer a relva, ou quem lha pôs ao alcance? Devem condenar-se os indivíduos que aproveitaram as oportunidades, ou o estado que lhas colocou à frente e que, praticamente, lhas enfiou pela garganta abaixo?

3- E cá, a imensa dívida do estado e a nacionalização de bancos falidos.

Mas a esquerda anti-capitalista está-se nas tintas para estes factos inegáveis e profusamente referenciados, principalmente porque odeia o lucro. Este ódio busca raízes na ideia marxista de que o lucro é, por definição, o resultado da exploração do homem pelo homem. É, portanto, um pecado mortal que merece condenação e ódio.

Quando estes indignados protestam contra o capitalismo, estão a errar o alvo por muitas milhas. Os monopólios, os corporativismos, os negócios patrocinados pelos favores políticos, são a antítese do capitalismo. Onde há monopólios não há competição e, por sistema, os preços sobem, os salários baixam e os bens e serviços perdem qualidade.

Muitos destes indignados são indivíduos genuinamente preocupados com o seu futuro e nem se apercebem que estão apenas a servir de testas de ferro e figurantes de activistas profissionais, movidos pelo puro ódio ideológico ao capitalismo. 

Nas universidades, tomadas de assalto pelos intelectuais orgânicos inspirados por Gramsci, estes jovens são endoutrinados nas velhas noções marxistas da luta de classes, amalgamadas no niilismo da pós-modernidade. Incapazes de perceber como funciona o sistema em que vivem, são facilmente manipulados pelas raposas velhas do activismo esquerdista, de resto bem financiadas, por dinheiros milionários apostados na destruição do sistema que os gerou. 

O caso de Soros é conhecido e está por detrás de centenas de organizações apostadas na implementação do socialismo, desde ONG's a estações de rádio e televisão.

Os problemas que esta gente pode criar não irão destruir o capitalismo, nem trazer novamente o desacreditado socialismo. Apenas criar caos, desordem, destruição e pobreza.

Por: José António Rodrigues Carmo, na sua página do Facebook.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A propósito das declarações de D. José Policarpo

Ouvi hoje o emérito cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, que já nos habituou aos seus comentários ultramontanos e dum reaccionarismo para lá dos limites, proferir, no que concerne à nomeação/eleição do futuro nóvel papa, que o único critério a ter em consideração teria de ser o factor etário, ou seja mais ou menos o mesmo que dizer que o futuro papa terá de conseguir fazer os 100 mts em menos de 15 segundos. 

Por aqui tudo bem, que o futuro papa tenha uma perspectiva de longos anos de papado, sempre será menos despesa em rituais e fumaças, mais ou menos brancas. 

O que é inqualificável é que o dito D. José, ao pretender dar uma de grande abertura "democrática" diz que o próximo papa até "preto" podia ser. 

Já agora, convém lembrar que entre os mais de 100 cardeais "papáveis" (que engraçada é esta palavra), há por lá tambem seguramente "chinocas", "monhés" e mais uns quantos de outras etnias, ou até provenientes de processos de miscegenação, bem vindos, que só amenizam e trazem açucar a esta humanidade, normalmente dividida entre brancos e pretos. 

A gravidade de tudo isto é o branqueamento de séculos de colonização e exploração desenfreada dos povos africanos, que naturalmente ainda estão longe de conseguir cicatrizar esses anos de humilhação, e para quem a palavra "preto" tem uma enorme carga racista e lhes reabre feridas de indignação que, justamente lhes recorda o passado colonial. 

 Desconhecer esta susceptibilidade e desconforto provocada desnecessáriamente às pessoas de raça negra, e aos católicos africanos, em particular, revela uma imensa insensibilidade social. Já há dias, e pelas mesmas razões, desagradou-me a alusão feita por Arménio Carlos, ao representante "escurinho" da troica e por isso o verberei em comentário que então fiz. 

Agora, por maioria de razão, porque vindo do mais alto representante da igreja católica em Portugal, a utilização desta designação é altamente condenável, pois refecte uma prova de enorme desrespeito e desprezo pelas outras culturas e etnias. 

Num país em que o primeiro ministro se refere à guerra colonial, como guerra do ultramar, só faltava mesmo esta "eloquência" do cardeal de chamar pretos aos negros. 

Por João Ribeiro

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Socialismo, morreu...

"Socialismo" é uma palavra bonita e estamos tão agarrados à ideia da bondade das intenções do socialismo que mesmo aqueles que com ele recusam qualquer identificação não conseguem deixar de lhe prestar um tributo ético.

O socialismo morreu no fim do século XX e esta morte fez desaparecer do horizonte político da nossa civilização provavelmente a única alternativa real, estruturada e com raízes nos valores judaico-cristãos, ao capitalismo liberal.

E porque o capitalismo (tal como todos os sistemas) continua a alimentar a rejeição e a insatisfação de vastos sectores das próprias sociedades que enformou, sem o socialismo, a contestação interna anti-capitalista resume-se a variações demagógicas sobre a tirania e a barbárie, vontades ad-hoc que se esgotam no próprio acto de contestar. Custa-me dizê-lo, mas por vezes sinto pena que o socialismo (que partilha alguns valores essenciais com o liberalismo), não esteja já aí para federar a contestação, função que sempre cumpriu bem.

É verdade que muita gente continua a reclamar-se socialista, partidos e regimes socialistas é o que não falta por aí mas a essência do ideal socialista, essa é bastante vaga e não pode deixar de o ser, face às tenebrosas realidades que gerou no século passado e que acabaram por lhe selar o caixão. Existe também um núcleo duro de fiéis que afirmam que não se pode julgar o socialismo pelas suas realizações. Para estes, Cuba, URSS, RDA, Líbia, Iraque, Venezuela, não eram/são verdadeiramente socialistas, nem as políticas seguidas pelos partidos socialistas são verdadeiramente socialistas (o nosso PCP chama-lhes sempre “politicas de direita”).

Esta argumentação não é séria. O socialismo é aquilo que faz, e o lamento dos crentes, de que o verdadeiro socialismo nunca foi realizado, é uma falácia obstinada que poderá ser invocada por qualquer ideologia falhada. Por exemplo, os fascistas podem dizer que Mussolini não realizou o “verdadeiro fascismo” e os apaziguadores do Islamismo que o islão violento e intolerante não é o “verdadeiro islão”.

A relação do socialismo com a realidade parece ser como a do potássio com a água: ao mínimo contacto volatiliza-se, o que suscita a questão de saber o que há então no ideal socialista que o torne tão incompatível com a realidade quando parecia aos seus defensores um sistema racional, que expunha os defeitos óbvios da sociedade capitalista.

O primeiro socialismo era utópico, como Marx lhe chamou. Insatisfeito com a modernidade, essa insatisfação era basicamente uma versão secular da crítica católica a um mundo cada vez mais surdo ao seu discurso. Saint-Simon acreditava até ser uma espécie de Messias que trazia a revelação final.
A sua principal crítica era a de que a liberdade não é o mais importante porque uma sociedade fundada apenas nos direitos individuais não tem lugar para certas virtudes que devem caracterizar uma comunidade política, nomeadamente um núcleo moral comum e uma ideia do que deve ser uma vida “boa”. 

Na verdade a sociedade capitalista descrita por Adam Smith e outros, de certo modo negligenciava essas virtudes, remetendo-as para a esfera privada. Fazia-o, não porque as considerasse desnecessárias, mas porque tinha como assumido e inabalável o acervo moral judaico-cristão. O indivíduo era “formatado” nesses valores e, mesmo que rejeitasse a crença religiosa, os valores estavam lá, já faziam parte dele. O capitalismo respirou nesta e desta atmosfera moral que, contudo, se foi desgastando face à emergência de conceitos relativistas e niilistas, de certa forma gerados no e pelo próprio espírito do capitalismo.

O socialismo cativou tanta gente inteligente e bem intencionada, porque foi um esforço moderno para resistir à corrupção ética da própria modernidade. É, por isso, uma religião secular, conceito de resto assumido como necessário pelos próprios “saint-simonianos”. Contém um núcleo religioso, um conjunto de princípios de “mal” e “bem”, no qual são endoutrinados os fiéis. A experiência israelita do kibbutz é, por isso, extraordinariamente similar à pequena comunidade religiosa, uma comunidade socialista que funciona, mas apenas na medida em que as pessoas aderem ao núcleo de valores, a comunidade se mantém suficientemente pequena para evitar a divisão do trabalho e as classes sociais que isso implicaria, e manifeste alguma indiferença para com os bens materiais não essenciais, sem a qual não existiria igualdade.

Os socialistas utópicos esperavam abolir a pobreza, mas visavam padrões modestos, típicos de uma comunidade Amish, por exemplo, porque a exaltação de apetites individuais que fossem para além disso, necessariamente criariam tensões no seio da comunidade, como de facto aconteceu nos kibbutz. A comunidade socialista deveria também produzir um tipo de indivíduo socialista, um homo novus que estivesse acima do materialismo e da vulgaridade dos apetites burgueses, típica do indivíduo capitalista.

Contudo o tipo de socialismo que varreu a história não foi este, mas sim o “socialismo científico” de Marx e seus discípulos, que alimentou a ambição, muito mais vasta, de transformar rapidamente toda a sociedade. O seu ímpeto moral era também decorrente da luta contra a modernidade mas acabou, nas suas várias vertentes (comunismo, social-democracia, etc.,) por fazer caminhos muito diferentes.

Todas as variantes do socialismo científico acreditavam em políticas manipuladoras e dirigistas que, pela acção governativa de uma elite iluminada, sobre as populações ignorantes ou alienadas, criariam a comunidade virtuosa. Mas, ao contrário do seu antecessor utópico, o socialismo científico criticava o capitalismo por este ser incapaz de produzir a abundância que a tecnologia possibilitava e, em vez de uma igualdade assente na escassez, trombeteava a igualdade na abundância. Não é por isso de admirar que tenha atraído imediatamente todos aqueles que se sentiam frustrados por aquilo que o sistema capitalista lhes dava. As massas não queriam uma vida virtuosa e modesta, mas sim ter tudo aquilo a que se julgavam com direito.

O socialismo científico cristalizou em duas correntes que chegaram ao poder no séc. XX: uma que entendia que a comunidade socialista devia manter o sistema liberal de democracia parlamentar e outra que considerava isso indesejável.

O socialismo totalitário, falhou rotundamente. O planeamento centralizado foi incapaz de lidar com a complexidade da realidade moderna e da natureza humana. É certo que foram realizadas grandes obras e projectos, mas não há nisso nada que se possa creditar ao socialismo. A História está cheia de grandes realizações levadas a cabo por poderes autocráticos, desde as Pirâmides, à Grande Muralha da China. Naquilo que interessava ou seja, criar uma sociedade de abundância para todos, este socialismo falhou em toda a linha e revelou-se mais “utópico” do que o socialismo utópico propriamente dito.

A vertente social-democrata não leninista, não teve muito melhor sorte e onde aparentou algum êxito, foi sempre à custa da própria doutrina.

O caso sueco é paradigmático. Décadas de governação social-democrata, desembocaram num país próspero, com uma economia que, no início da década de 70, se dividia a meio entre capitalismo privado e capitalismo de estado. Mas a pressão ideológica socialista para nacionalizar ainda mais e fazer uma redistribuição mais igualitária dos rendimentos, conduziu ao abrandamento económico, inflação galopante, baixa de produtividade, quase bancarrota e ao descontentamento que acabou por determinar a derrota dos social-democratas e o regresso a um caminho mais próximo do capitalismo liberal.

Na Inglaterra, então designada pelo “doente da Europa”, aconteceu mais ou menos o mesmo, tendo finalmente emergido Margaret Tatcher que pôs fim à deriva socialista e salvou o país.

Hoje, face à crise e à retórica socializante que se ouve de novo, as sociedades precisam de se vacinar contra o regresso de um fantasma que morreu, mas ainda pensa estar vivo.

O ingrediente estritamente económico da vacina está mais do que identificado, e passa por um Estado-Previdência que evite a lei da selva e associe compulsividade e livre escolha, de resto perfeitamente compatível com o capitalismo liberal.

O ingrediente ético é um osso mais duro de roer. O declínio das crenças religiosas e dos valores tradicionais, é uma das mais sérias contradições, no sentido dialético, do capitalismo, uma vez que resulta da própria ideia liberal de que estas coisas são da esfera privada.

Mas é um osso que tem de ser roído pelo próprio sistema capitalista liberal, sob pena de a morte do socialismo redundar no aparecimento de fantasmas pseudo-socialistas que assentam os seus gritos lancinantes de além-túmulo no repúdio da liberdade individual em nome da “igualdade”.
E esse caminho já sabemos onde conduz.

Por: José António Rodrigues Carmo, na sua página do Facebook.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Socialismo, substantivo comum

O “socialismo” é um substantivo comum precisando urgente de adjetivos incomuns. No jogo das palavras que produzem a história, “socialismo” é substantivo quase banido do nosso noticiário, da nossa política e do nosso cotidiano. Sorrateiramente, o vocábulo foi sendo exilado para as margens da vida, para alívio de alguns, especialmente para os grupos que vivem confortavelmente neste mundo tão desconfortável.

Quem viveu a efervescência dos anos sessenta (e seguintes) e a esperança quase tocada de um mundo melhor, sabe que o substantivo comum “socialismo” já foi sinônimo exatamente de “esperança” e de “mundo melhor”, palavra que juntava gente e que ameaçava interesses, palavra gritada, cantada, escrita, publicada, anunciada, palavra que fazia sonhar parte da população e causava insônia na outra, nessa minoria privilegiada, cercada de luxo em uma estrutura produtora de lixo e miséria.

A palavra se perdeu nas adjetivações da história. No século dezenove havia os socialismos “utópicos”, tantos e de tantas cores, e o socialismo “científico”, único e hegemônico, firmemente estabelecido nos alicerces da ciência, nos resultados das gigantescas pesquisas de Marx que teve a genialidade, segundo Edgar Morin, de reunir ciência, filosofia e política em construto complexo. Colocado na prática de várias experiências do século vinte, demonstrou contradições e fragilidades, tornando-se socialismo “real”.

No fim dos anos noventa o mundo muda e a palavra começa a desaparecer, perdida pelos escombros de um mundo sombrio. Curiosamente começa a desaparecer também a palavra “capitalismo”, mistério não tão misterioso dos antônimos entrelaçados. Socialismo sempre foi a crítica do capitalismo. Destituída a crítica, desaparecida a obscuridade, o objeto criticado tornou-se tão luminoso que não pode mais ser encarado, nem precisa. Ele mesmo é a luminosidade que dá a claridade, sol esplendoroso que ilumina o mundo.

Entretanto, sem a crítica das sombras o mundo não ficou melhor. A hegemonia quase absoluta do capital nos leva a ter saudades do desusado substantivo, talvez com novos adjetivos. Esse sol ofuscante não parece ser luz benfazeja, mas radiação que ameaça a vida do planeta, um Mamom todo-poderoso sem nenhum diabo para lhe combater os excessos. Os sacerdotes do capital promovem guerras, invadem países, retiram direitos de todas as pessoas, sob a bênção dos seus profetas, seguindo os seus textos sagrados.

Dentre os textos antigos, o do patriarca Adam Smith, que nos convidou a cuidar cada um do nosso próprio interesse que uma espécie de “mão invisível” cuidaria do interesse da coletividade. Hoje temos de admitir um sistema não de uma única mão, mas de muitas mãos invisíveis, que repetem o gesto ritual da coletividade, enquanto encaminham para seus próprios bolsos “as riquezas das nações”. Um dos resultados da perversidade do sistema é uma brutal concentração de renda, ao ponto de Domenico De Masi admitir que cerca de quinhentas pessoas dominam mais da metade do PIB de todo o planeta.

Quando lembramos hoje da coisificação do ser humano que significou a economia escravista, quando abominamos a corvéia do sistema feudal, sonhamos pessoalmente com um futuro em que se fale do horror do sistema capitalista, época em que o ser humano e seus valores mais nítidos foram transformados em mercadoria. Neste momento atual, o sistema capitalista quase não consegue ser percebido, como não percebemos o ar que respiramos e que nos garante a vida. Na cumplicidade das metáforas, ambos estão se tornando cada vez mais irrespiráveis.

Mas, quem sabe, nesse futuro remoto, ou nem tanto, as perversidades estruturais de um sistema baseado no egoísmo e na exploração do tempo e da alegria do trabalhador, terão sido tornados objetos de estudos históricos, tema de redação indignada de pessoas que viverão já nesse mundo melhor que esperamos. A palavra para esse possível e impossível mundo ainda é “socialismo”, substantivo comum, talvez então cercado de adjetivos incomuns. Houve um tempo até em que se falava de um socialismo à brasileira, com carnaval, samba e futebol. Tomados em seu valor simbólico, nunca como estão atualmente também estruturados pelo capital, esses podem ser bons caminhos para se repensar a humanidade.

Por: Marcos Monteiro Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão (CEPESC). Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana (BA) e coordena a ONG Portal da Vida. Faz parte das diretorias do Centro de Ética Social Martin Luther King e da Fraternidade Teológica Latino-Americana do Brasil.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O Socialismo, afasta o investimento e a iniciativa privada

Uma das "soluções socialistas" consiste em "taxar os muito ricos". 

A ideia é a chamada "justiça social". 

Os resultados é que teimam em contradizer a ideologia, porque na vida real é esta gente que investe na economia real. 

1- Nos EUA, a Califórnia vem acrescentando taxas aos milionários e Obama quer fazer o mesmo para a América toda. Resultados: O dinheiro foge: Tiger Woods, Phil Mickelson, Tina Turner, etc, já se puseram a milhas. E os estados com taxas mais altas (California, Illinois, New York, etc) estão a perder população para os estados com impostos mais baixos ( Nevada, Texas, Arizona, etc) 

2- O Reino Unido, um ano depois da chamada "Millionaires Tax", perdeu 70% dos seus milionários. 

3- Na França, após a ideia brilhante de Hollande, até o actor esquerdista Gerard Depardieu se pôs a milhas. E, claro, Sarkozy, que também saíu por causa dos impostos. O resultado é fantástico: a França está, disse há dias o seu Ministro do Trabalho, "à beira da bancarrota". 

4- Na Suécia, há uns bons anos, enquanto os impostos subiam a níveis estratosféricos, a bancarrota esteve por um triz e toda a malta fugia, desde os Abba até Bjorn Borg. 

MORAL DA HISTÓRIA: A ideologia é uma máquina de negar factos. Se este "remédio" socialista tem o efeito contrário ao que se pretende, e isto é um facto, porque razão se insiste nele? 

Por:José António Rodrigues Carmo

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Amanhãs que cantam

O proletariado de um modo geral, e a classe operária em particular, atravessam uma época exaltante. 

Os amanhãs radiosos voltaram a cantar, o grande capital treme de medo, Marx ressuscita, o Tio Arménio ameaça, o Operário Jerónimo embeiça e até os famosos líderes bicéfalos exigem que se retome a saga revolucionária do saudoso João Cravinho, nacionalizando por decreto todos os antro tenebrosos da alta finança arqueo-capitalista, neoliberal e proto-gananciosa. 

A adjectivação ganha asas, os baladeiros indignam-se e a cantiga volta a ser uma arma contra a burguesia.

No glorioso caminho para o socialismo espera-se agora por um governo a sério que nacionalize as petrolíferas, as telecomunicações, a Liga Sagres, o quiosque do Sr Martins, a churrasqueira Rainha dos Frangos, os pilares da ponte S. João e por aí adiante, exceptuando o meu carro, claro.

Os reaccionários neoliberais, ultra-neocons e arqueo-capitalistas andam calados que nem ratos, e consta que alguns já estarão a preparar a fuga para o Brasil, como os Champalimaudes, os Amorins,os Belmiros, os Soares dos Santos, etc. Teme-se que as próprias Rotundas de Viseu emigrem precipitadamente para o sertão brasileiro.

O que é capaz de não ser uma grande ideia porque vagueiam por lá lulas gigantes que mudam de cor com impressionante rapidez, ao ritmo da cachaça. 

E, se bem que algo desafinados, os amanhãs também querem cantar, misturando as estrofes da Internacional com o samba do mensalão, numa mistura bolivariana de Fórum de S. Paulo com ritual de Candomblé. 

Fugir para a Venezuela muito menos, porque aí só canta o Exu Chavez que, apesar de zombie, continua a anunciar o nascer de um novo amanhã cantante e bolivariano, a partir das cinzas putrefactas do neoliberalismo ultra neocon, arqueo-imperialista e proto-capitalista e isso.
 
E eu, reaccionário impenitente e irrecuperável, que bem queria odiar o grande capital mas nem as pequenas quantias consigo desprezar, temo que o ritmo revolucionário não me entre na corneta, mesmo que me encostem à muralha de aço.
 
Uma chatice!

Por:
José António Rodrigues Carmo P.S: Algumas das passagens deste texto foram extraídas das teses do último Congresso do PCP, leitura obrigatória em qualquer casa de banho de média qualidade, e muito eficaz na prevenção da obstipação.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Vão Trabalhar, Malandros!

Chamem-me fascista. 

Mas chamem bem alto, porque a miséria para onde acabaram por nos conduzir, os miúdos que a única refeição que tomam é na escola, as pessoas que se vêm sem nada, sem um cêntimo na algibeira, olhando para os filhos à volta da mesa (façam um esforço, façam mesmo, para se imaginar nessa situação), criam-me um escudo onde essas pretensas ofensas irão esbarrar. 

Chamem, podem chamar.

O que neste país se fez em nome da liberdade, é uma vergonha, é miserável. 

Não sejamos hipócritas, e assumamos cada um de nós a sua participação nesta farsa... nesta mentira. 

Passeatas de "charrete", bólides e carrões de milhões à porta do Hotel,recepções na Fundação do "fascista" Champalimaud e na Presidência da Republica, e a população abobalhada a bater palmas.

Miseráveis. Tenham vergonha. 

Até quando ? Quando vamos varrer com esta gentalha ? 

Estes pseudo intelectuais, acoitados nas noitadas dos ditos "circulos culturais" do Bairro Alto e noutros espaços apropriados à reflexão intelectual, em frente a uns bons whisky's "Black Label", como só uma boa vanguarda doutrinária de esquerda bem merece. 

As boas tensas recebidas pelas "vomitadelas" com que os referidos pseudo intelectuais, todos os dias nos agridem nos diferentes canais de televisão, comentadores, politólogos, e outros quejandos, enchendo os bolsos à custa de uma credibilidade que só a ignorância pode sustentar. 

VÃO TRABALHAR MALANDROS, que foi o que nunca na vida V. Exas. fizerammmmm.

Levantem-se antes do meio dia, e enfrentem um dia da trabalho,e não de preparação para mais uma noitada.Tenham vergonha. É pedir muito, não é ? 

Vampiros......." no céu cinzento sob o astro mudo...... bebendo o sangue fresco da manada....... eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada.....) 

Tal como no Estado Novo (fascista), o importante é manter o povo amordaçado na sua ignorancia, porque se assim não for V. Exas. perderão, de imediato, as vossas tão "merecidas" mordomias.... canalhas. 

Texto retirado da Internet. Autor desconhecido.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sobre esta história do Pitbull que matou uma criança

O José de Sá escreveu:
Sobre a história do Pitbull que matou uma criança, e da compaixão que o cão suscita, ao contrário da criança, vou partilhar uma pequena reflexão antiga: 

ALIENAÇÃO. 

E o problema é similar ao das touradas. Para quem veja o National Geographic, algo que impressiona é o olhar da leoa para a impala: totalmente desprovida de empatia. Aliás, é também como ela nos olha, e até as suas crias, no que se distinguem de imediato de um gato doméstico, por exemplo. O olhar da leoa é desalienado. Ela vê o que a impala realmente é: carne comestível!

Do mesmo modo, o povo que vê a tourada tem o olhar desalienado e lúcido: aquilo não passa de uma centenas de quilos de bifes! É para isso que os cria nos prados - para os esmifrar da carne, do leite, da força de tracção. Não é para os acarinhar projectando neles uma humanidade que os touros não têm.

Quando assiste a uma tourada, um apreciador não vê um animal que sofre. Vê um perigo de morte (para o toureiro, que esse sim, é humano), que a inteligência e a coragem dos homens domina. Quando se lhe espeta uma farpa, por exemplo, não é no touro que se pensa: é no toureiro, que assim estimula a agressividade da besta para poder continuar o jogo com a morte bestial que na arena realiza. Não há no touro picado nenhuma expressão de sofrimento. Aliás, não há nenhuma expressão...

Amar o touro como se fosse humano, ou o Pitbull que matou a criança, é uma forma de animismo primitivo, embora numa alienação típica das cidades modernas. Resulta de dissociar o touro da arena dos pacotes embrulhados com bifes do hipermercado. É projectar-lhe uma humanidade que os animais não têm. Uma alma. 

Animismo, portanto, do mais reles e primitivo que costumamos atribuir aos indígenas antigos...

Claro, gostar de fazer sofrer animais, como certas crianças fazem, é um versão invertida do mesmo animismo, e esse sim, condenável, por esconder o desejo de fazer o mesmo a humanos. O mesmo quanto à zoofilia, menos rara do que se pensa...

Com os cães a coisa é um pouco diferente. Há efectivamente uma empatia excepcional entre esses animais e os humanos. 

Primeiro, o tipo de sociabilidade é semelhante: os canídeos caçam em grupo e têm por isso a maior taxa de sucesso na caça de todos os carnívoros - e, como nos humanos, a sua superioridade reside quase inteiramente na força do grupo. Além disso têm hierarquias sociais também semelhantes às humanas - em certos casos (hienas) há uma fêmea dominante, noutros há um casal dominante (lobos), certos canídeos cuidam dos feridos e doentes da matilha.

Segundo, a relação dos cães com os humanos remonta à pré-história, e penso que advém precisamente dessa semelhante sociabilidade. Depois os humanos apuraram as raças mais afins, até termos estes animais cuja empatia connosco é sabida. Mas não deixam de ser animais. 

Que, aliás, por vezes os humanos apuram para serem armas suas. Como os doberman dos nazis. Ou os cães com explosivos às costas que os russos usavam contra os Panzer, fazendo-os passar fome e "ensinado-lhes" que a comida estava debaixo do tanque (aposto que esta utilização suscitaria gigantescos abaixo-assinados contra)... ou os cães de alfândega que são viciados de modo a procurarem droga nas bagagens...

Um cão como companhia doméstica? Em certos casos entendo, na velhice, por exemplo...

Mas desenvolver com os cães uma relação como se fossem humanos, filhos ou algo assim, particularmente quando ainda se é novo, não é só alienação animista. 

É querer ter escravos humanos totalmente subservientes e, não podendo, encontrar-lhes o sucedâneo legal...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Acordo Ortográfico, ou a destruição da Lingua Portuguêsa ?

Há dias, a Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, adiou a obrigatoriedade de implementação do "Acordo" Ortográfico para 2016. 

Fê-lo com base numa petição que reuniu 20.000 assinaturas. 

Em Portugal, uma igual petição reuniu mais de 130.000, e não teve qualquer eco.

130.000 assinaturas num país cuja população é incomparavelmente menor do que no Brasil. 

Devemos aproveitar para reflectir seriamente sobre o "A"O e os seus efeitos em Portugal. 

O exemplo vem-nos, aliás, do próprio Brasil. Nesse país, os argumentos aduzidos apontam para críticas de ordem científica ao "A"O. E junta-se a essas críticas o argumento da necessidade de uma "maior simplificação" da ortografia da língua portuguesa. Além de que por exemplo o linguista Evanildo Bechara assegura que o "A"O precisa de ser revisto. 

Revisto - e nem ainda entrou em vigor! 

Isto diz bem da consistência científica de um dos maiores atentados feitos à língua portuguesa. Naturalmente, este adiamento sublinha a bondade das críticas feitas ao "Acordo", mostrando que nem em Portugal nem no Brasil (nem nos outros países lusófonos, que mostraram grandes reticências, sendo que Angola ainda não o ratificou) ele conseguiu um consenso mínimo em termos científicos. 

A grande questão, agora, é saber se realmente há base científica para que algum dia ele venha a existir. Com este ponto suplementar: a partir do momento em que várias declarações, no Brasil, apontam para a necessidade de uma maior "simplificação" da língua portuguesa, o que se impõe perguntar em Portugal é: queremos nós, em Portugal, "simplificar" (seja o que for que isto queira dizer!) a língua? 

Ou privilegiamos (legitimamente também) a história da língua portuguesa na Europa, guardando por exemplo alguns traços etimológicos da sua origem e evolução ao longo dos séculos? 

Simplificando a pergunta: haverá base, em termos de uma política científica do Português, para um acordo que não parece agradar nem a gregos nem a troianos? A resposta talvez seja: "Assim-assim." 

Em Portugal, é sob esta fórmula que se costuma esconder a falta de coragem e a aceitação tristonha do império da realidade, quando mais vale não pensar. 

Em 2016, eis um cenário muito possível: 

Angola manterá a ortografia existente anterior ao "Acordo". 

Portugal seguirá, se não conseguir inverter o statu quo, o pobre "acordês". 

E o Brasil terá entretanto revisto e certamente "melhorado" o "Acordo", escrevendo numa terceira ortografia. 

Resumindo: cada qual escreverá de sua maneira, e ter-se-á esfrangalhado a ortografia comum que, até agora, era seguida por todos os países lusófonos, com excepção do Brasil. Ou seja: será um verdadeiro "acordo português", em que ninguém sabe acordar. 

Por Helena Buescu Professora catedrática, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no Público, 08/01/2013

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

«Não pode haver tolerância nem diálogo com pessoas que nos dirigem 'slogans' injuriosos»

 «Os manifestantes agitavam bandeiras negras, símbolos da fome, e gritavam "gatuno!", "ladrão!". Mário Soares não ficou parado a ouvi-lo. 

No dia 30 de Novembro de 1983, quando ouviu esses insultos contra a austeridade imposta pelo programa do FMI, o primeiro-ministro e líder do Bloco Central (coligação PS-PSD) visitava Coimbra acompanhado do ministro socialista Almeida Santos. 

Semanas antes, o governo anunciara um imposto extraordinário de 2,6% sobre os rendimentos dos portugueses (em 2013, a sobretaxa será de 3,5%). Soares aproximou-se dos manifestantes comunistas que o perseguiam com as bandeiras pretas e agiu.  

"Passei muito perto deles, aí a uma distância de um metro do local onde se encontravam, a vociferar", contou Soares no segundo livro de entrevistas biográficas à jornalista Maria João Avillez. "Ao lado estava um polícia muito aprumado na sua farda, impassível. Interroguei-o: 'Senhor guarda, o que está aqui a fazer? Não ouve estes insultos? O polícia ficou atrapalhado, mas agarrou no homem cujos insultos eram mais vernáculos e audíveis e prendeu-o."

Na sequência da ordem do primeiro-ministro, três homens e uma mulher foram detidos e presentes a tribunal. (...) 

Segundo Mário Soares, as bandeiras negras da fome eram uma construção do PCP.  

"Havia uma equipa de cerca de 200 manifestantes - sempre os mesmos - que andava de um lado para o outro, com bandeiras pretas, para me consultar e insultar. Eram profissionais." 

No tribunal de Coimbra, o juiz Herculano Namora absolveu os manifestantes. Para os julgar, segundo o Código Penal, era preciso uma queixa (inexistente) do ofendido. Indignado, o primeiro-ministro reagiu assim à decisão judicial, de acordo com o Correio da Manhã da época:  

"Se o juiz entendeu que não foi um crime público, o problema é dele. Ficamos a saber que esse juiz não se importa que lhe chamem gatuno."

Revoltado com o comentário do chefe do governo sobre a sua decisão judicial, o juiz apresentou queixa no Conselho Superior da Magistratura: 

"Parece-me que o dr. Mário Soares se precipitou ao comentar a decisão de um órgão de soberania, pondo em causa a independência dos tribunais e da própria magistratura."

Mário Soares não hesitou: se a lei não servia, mudava-se a lei. Na semana seguinte, o Conselho de Ministros alterava o Código Penal, explicando em comunicado que se tornavam públicos, sem depender de queixa, "crimes de difamação, injúria e outras ofensas contra órgãos de soberania e respectivos membros." Se repetissem a graça, aqueles comunistas não seriam absolvidos.

Há uma semana, quase 30 anos depois de liderar o governo de maior austeridade antes do de Pedro Passos Coelho, Mário Soares escreveu no Diário de Notícias


Soares também encabeçou uma carta aberta de 70 personalidades a pedir para Passos Coelho se demitir.

Mas quando liderou o Bloco Central coligado com Carlos da Mota Pinto, do PSD, o primeiro-ministro socialista também correu riscos e não era uma figura que agisse de acordo com as regras de comunicação política hoje consideradas normais.

No dia 1 de Novembro de 1983, à porta da fábrica da Renault, em Setúbal, cercada por trabalhadores, Soares gritou-lhes: 

"Diálogo convosco, só com a polícia!" 

Segundo a agência noticiosa Anop, o primeiro-ministro justificou-se assim:  

"Não pode haver tolerância nem diálogo com pessoas que nos dirigem slogans injuriosos." São Bento emitiria um comunicado a dizer que "o díálogo tem regras e perante as injúrias a resposta só pode vir das autoridades policiais".»

Excertos de um extenso artigo de Sara Capelo e Vítor Matos, intitulado "As cargas policiais de Soares", publicado hoje na revista Sábado.
por Pedro Correia in Forte Apache

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Escutas - E a impunidade da Justiça, quando é que acaba?

As investigações ao caso Monte Branco levaram o Ministério Público a proceder a escutas ao presidente do BESI, José Maria Ricciardi, para recolha de informação, seja lá o que isso for, e acabaram por apanhar Pedro Passos Coelho. Tudo, claro, acabou em mais violações do segredo de justiça. A justiça continua, portanto, igual a si própria, sem controlo, a promover julgamentos fora dos tribunais. A suspeita instalou-se, o julgamento público está em curso.

O caso Monte Branco tem tudo, tem poder, tem dinheiro, tem política, tem relações perigosas e até família e tradição. Mas, tendo tudo isto, sabe-se muito pouco, ou quase nada. O DCIAP não explicou ainda nada ou quase nada do que está em causa, apesar do impacto mediático de um caso que revelou uma rede internacional de lavagem de dinheiro e de fuga fiscal que passou por Lisboa e já levou a detenções. Mas Cândida Almeida já revelou que esta investigação permitiu abrir outra, aos assessores financeiros das privatizações da EDP e da REN.

Se há motivos para investigação, exige-se que o Ministério Público o faça, em nome de todos, em nome do Estado. Se há indícios, que sejam clarificados. Mas a verdade é que o problema não são os muitos processos desencadeados pelo MP, são, ao contrário, os muito casos que acabam no esquecimento, na ausência de prova, até, como aconteceu no caso Freeport, no próprio MP a pedir a absolvição de quem tinha acusado. E, claro, no julgamento público, mais doloroso do que próprio julgamento em tribunal, porque os visados não têm protecção, não têm direitos, ficam à mercê de quem julga, recorrendo à figura da fonte anónima da justiça, uma espécie de juiz do tribunal da comunicação social.

A forma como este processo está a ser conduzido suscita suspeitas, desde logo sobre os próprios processos de privatização da EDP e da REN, e sobre os que estão aí à porta. Depois, sobre algumas das mais relevantes figuras do regime económico-financeiro em Portugal. É suficientemente grave para ser esclarecido mais cedo do que tarde.

José Maria Ricciardi é suspeito de alguma coisa? Além do voluntarismo de telefonemas para um ministro e para um primeiro-ministro? As primeiras informações sobre o seu alegado envolvimento no processo Monte Branco e/ou nas investigações às privatizações já têm mais de dois meses, mas a suspeita mantém-se por esclarecer. Dito de outra forma, Ricciardi é culpado até prova em contrário.

Pedro Passos Coelho é suspeito de alguma coisa? Além da disponibilidade para atender telefonemas de banqueiros? O primeiro-ministro, diga-se de passagem, ajuda à festa. Percebe-se a intenção quando diz que tem todo o gosto em que as escutas que o apanharam a falar com o presidente do BESI sejam reveladas. Não tem nada a temer, ainda bem, mas ninguém o considerava suspeito de nada, nem sequer suspeito de ser suspeito.

Esperava-se que a primeira preocupação do primeiro-ministro fosse a de zelar pelo Estado de Direito, coisa que a divulgação de escutas contraria.

A ministra da Justiça Paula Teixeira da Cruz garantia, há dias, que a impunidade, dos poderes instalados, dos políticos, acabou. E quem garante que os cidadãos estão protegidos da impunidade do Ministério Público, leia-se da própria Justiça?

Fonte: Diário Económico / Ironia do Estado

O maior escândalo financeiro da história de Portugal!

João Marcelino, diretor do Diário de Notícias, de Lisboa, considera que “é o maior escândalo financeiro da história de Portugal", qualquer coisa como 9.710.539.940,09 €!!! (paga por todos nós, contribuintes, que não podemos reclamar e sem que nenhum dos conhecidos criminosos tenha sido responsabilizado…)

 Nunca antes houve um roubo desta dimensão, “tapado” por uma nacionalização que já custou 2.400 milhões de euros delapidados algures entre gestores de fortunas privadas em Gibraltar, empresas do Brasil, offshores de Porto Rico, um oportuno banco de Cabo Verde e a voracidade de uma parte da classe política portuguesa que se aproveitou desta vergonha criada por figuras importantes daquilo que foi o "cavaquismo" na sua fase executiva”.

O diretor do DN conclui afirmando que este escândalo “é o exemplo máximo da promiscuidade dos decisores políticos e económicos portugueses nos últimos 20 anos e o emblema maior deste terceiro auxílio financeiro internacional em 35 anos de democracia. Justifica plenamente a pergunta que muitos portugueses fazem: se isto é assim à vista de todos, o que não irá por aí?”

O BPN foi criado em 1993 com a fusão das sociedades financeiras Soserfin e Norcrédito e era pertença da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), que compreendia um universo de empresas transparentes e respeitando todos os requisitos legais, e mais de 90 nebulosas sociedades offshores sediadas em distantes paraísos fiscais como o BPN Cayman, que possibilitava fuga aos impostos e negociatas.

O BPN tornou-se conhecido como banco do PSD, proporcionando “colocações” para ex-ministros e secretários de Estado sociais-democratas. O homem forte do banco era José de Oliveira e Costa, que Cavaco Silva foi buscar em 1985 ao Banco de Portugal para ser secretário de Estado dos Assuntos Fiscais e assumiu a presidência do BPN em 1998, depois de uma passagem pelo Banco Europeu de Investimentos e pelo Finibanco. O braço direito de Oliveira e Costa era Manuel Dias Loureiro, ministro dos Assuntos Parlamentares e Administração Interna nos dois últimos governos de Cavaco Silva e que deve ser mesmo bom (até para fazer falcatruas é preciso talento!), entrou na política em 1992 com quarenta contos e agora tem mais de 400 milhões de euros.

Vêm depois os nomes de Daniel Sanches, outro ex-ministro da Administração Interna (no tempo de Santana Lopes) e que foi para o BPN pela mão de Dias Loureiro; de Rui Machete, presidente do Congresso do PSD e dos ex-ministros Amílcar Theias e Arlindo Carvalho. Apesar desta constelação de bem pagos gestores, o BPN faliu.

Em 2008, quando as coisas já cheiravam a esturro, Oliveira e Costa deixou a presidência alegando motivos de saúde, foi substituído por Miguel Cadilhe, ministro das Finanças do XI Governo de Cavaco Silva e que denunciou os crimes financeiros cometidos pelas gestões anteriores. O resto da história é mais ou menos conhecido e terminou com o colapso do BPN, sua posterior nacionalização e descoberta de um prejuízo de 1,8 mil milhões de euros, que os contribuintes tiveram que suportar. Que aconteceu ao dinheiro do BPN?
 Foi aplicado em bons e em maus negócios, multiplicou-se em muitas operações “suspeitas” que geraram lucros e que Oliveira e Costa dividiu generosamente pelos seus homens de confiança em prémios, ordenados, comissões e empréstimos bancários.

Não seria o primeiro nem o último banco a falir, mas o governo de Sócrates decidiu intervir e o BPN passou a fazer parte da Caixa Geral de Depósitos, um banco estatal liderado por Faria de Oliveira, outro ex-ministro de Cavaco e membro da comissão de honra da sua recandidatura presidencial, lado a lado com Norberto Rosa, ex-secretário de estado de Cavaco e também hoje na CGD. Outro social-democrata com ligações ao banco é Duarte Lima, ex-líder parlamentar do PSD, que se mantém em prisão preventiva por envolvimento fraudulento com o BPN e também está acusado pela polícia brasileira do assassinato de Rosalina Ribeiro, companheira e uma das herdeiras do milionário Tomé Feteira. Em 2001 comprou a EMKA, uma das offshores do banco por três milhões de euros, tornando-se também accionista do BPN.

Em 31 de Julho, o ministério das Finanças anunciou a venda do BPN, por 40 milhões de euros, ao BIC, banco angolano de Isabel dos Santos, filha do presidente José Eduardo dos Santos, e de Américo Amorim, que tinha sido o primeiro grande accionista do BPN. O BIC é dirigido por Mira Amaral, que foi ministro nos três governos liderados por Cavaco Silva e é o mais famoso pensionista de Portugal devido à reforma de 18.156 euros por mês que recebe desde 2004, aos 56 anos, apenas por 18 meses como administrador da CGD. O Estado português queria inicialmente 180 milhões de euros pelo BPN, mas o BIC acaba por pagar 40 milhões (menos que a cláusula de rescisão de qualquer craque da bola) e os contribuintes portugueses vão meter ainda mais 550 milhões de euros no banco, além dos 2,4 mil milhões que já lá foram enterrados. O governo suportará também os encargos dos despedimentos de mais de metade dos actuais 1.580 trabalhadores (20 milhões de euros).

As relações de Cavaco Silva com antigos dirigentes do BPN foram muito criticadas pelos seus oponentes durante a última campanha das eleições presidenciais. Cavaco Silva defendeu-se dizendo que apenas tinha sido primeiro-ministro de um governo de que faziam parte alguns dos envolvidos neste escândalo. Mas os responsáveis pela maior fraude de sempre em Portugal não foram apenas colaboradores políticos do presidente, tiveram também negócios com ele. Cavaco Silva também beneficiou da especulativa e usurária burla que levou o BPN à falência. Em 2001, ele e a filha compraram (a 1 euro por acção, preço feito por Oliveira e Costa) 255.018 acções da SLN, o grupo detentor do BPN e, em 2003, venderam as acções com um lucro de 140%, mais de 350 mil euros. 

Por outro lado, Cavaco Silva possui uma casa de férias na Aldeia da Coelha, Albufeira, onde é vizinho de Oliveira e Costa e alguns dos administradores que afundaram o BPN. O valor patrimonial da vivenda é de apenas 199. 469,69 euros e resultou de uma permuta efectuada em 1999 com uma empresa de construção civil de Fernando Fantasia, accionista do BPN e também seu vizinho no aldeamento.

Para alguns portugueses são muitas coincidências e alguns mais divertidos consideram que Oliveira e Costa deve ser mesmo bom economista(!!!): Num ano fez as acções de Cavaco e da filha quase triplicarem de valor e, como tal, poderá ser o ministro das Finanças (!!??) certo para salvar Portugal na actual crise económica. Quem sabe, talvez Oliveira e Costa ainda venha a ser condecorado em vez de ir parar à prisão….ah,ah,ah.

O julgamento do caso BPN continua (?!?!?!), mas os jornais pouco têm falado nisso. Há 15 arguidos, acusados dos crimes de burla qualificada, falsificação de documentos e fraude fiscal, mas nem sequer se sentam no banco dos réus. Os acusados pediram dispensa de estarem presentes em tribunal e o Ministério Público deferiu os pedidos. Se tivessem roubado 900 euros, o mais certo era estarem atrás das grades, deram descaminho a nove biliões e é um problema político.

Nos EUA, Bernard Madoff, autor de uma fraude de 65 biliões de dólares, já está a cumprir 150 anos de prisão, mas os 15 responsáveis pela falência do BPN estão a ser julgados por juízes “condescendentes”, vão apanhar talvez pena suspensa e ficam com o produto do roubo, já que puseram todos os bens em nome dos filhos e netos ou pertencentes a empresas sediadas em paraísos fiscais. 

Oliveira e Costa colocou as suas propriedades e contas bancárias em nome da mulher, de quem entretanto se divorciou após 42 anos de casamento. 

Se estivéssemos nos EUA, provavelmente a senhora teria de devolver o dinheiro que o marido ganhou em operações ilegais, mas no Portugal dos brandos costumes talvez isso não aconteça. Dias Loureiro também não tem bens em seu nome. Tem uma fortuna de 400 milhões de euros e o valor máximo das suas contas bancárias são apenas cinco mil euros. 

Não há dúvida que os protagonistas da fraude do BPN foram meticulosos, preveniram eventuais consequências e seguiram a regra de Brecht: “Melhor do que roubar um banco é fundar um”.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

"Adeus Portugal"- A Carta do outro Pedro

“Excelência,

Não me conhece, mas eu conheço-o e, por isso, espero que não se importe que lhe dê alguns dados biográficos. 

Chamo-me Pedro Miguel, tenho 22 anos, sou um recém-licenciado da Escola Superior de Enfermagem do Porto. Nasci no dia 31 de Julho de 1990 na freguesia de Miragaia. Cresci em Alijó com os meus avós paternos, brinquei na rua e frequentava a creche da Vila. Outras vezes acompanhava a minha avó e o meu avô quando estes iam trabalhar para o Meiral, um terreno de árvores de fruto, vinha (como a maioria daquela zona), entre outros. Aprendi a dizer “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite” quando me cruzava na rua com terceiros. Aprendi que a vida se conquista com trabalho e dedicação. Aprendi, ou melhor dizendo, ficou em mim a génesis da ideia de que o valor de um homem reside no poder e força das suas convicções, no trato que dá aos seus iguais, no respeito pelo que o rodeia.

Voltei para a cidade onde continuei o meu percurso: andei numa creche em Aldoar, freguesia do Porto e no Patronato de Santa Teresinha; frequentei a escola João de Deus durante os primeiros 4 anos de escolaridade, o Grande Colégio Universal até ao 10º ano e a Escola Secundária João Gonçalves Zarco nos dois anos de ensino secundário que restam. Em 2008 candidatei-me e fui aceite na Escola Superior de Enfermagem do Porto, como referi, tendo terminado o meu curso em 2012 com a classificação de Bom. Nunca reprovei nenhum ano.

No ensino superior conclui todas as unidades curriculares sem “deixar nenhuma cadeira para trás” como se costuma dizer. Durante estes 20 anos em que vivi no Grande Porto, cresci em tamanho, em sabedoria e em graça. Fui educado por uma freira, a irmã Celeste, da qual ainda me recordo de a ver tirar o véu e ficar surpreendido por ela ter cabelo; tive professores que me ensinaram a ver o mundo (nem todos bons, mas alguns dignos de serem apelidados de Professores, assim mesmo com P maiúsculo); tive catequistas que, mais do que religião, me ensinaram muito sobre amizade, amor, convivência,sobre a vida no geral; tive a minha família que me acompanhou e me fez; tive amigos que partilharam muito, alguns segredos, algumas loucuras próprias dos anos em flor; tive Praxe, aquilo que tanta polémica dá, não tendo uma única queixa da mesma, discutindo Praxe várias vezes com diversos professores e outras pessoas, e posso afirmar ter sido ela que me fez crescer muito, perceber muita coisa diferente, conviver com outras realidades, ter tirado da minha boca para poder oferecer um lanche a um colega que não tinha que comer nesse dia.

Tudo isto me engrandeceu o espírito. E cresci, tornei-me um cidadão que, não sendo perfeito, luto pelas coisas em que eu acredito, persigo objetivos e almejo, como todos os demais, a felicidade, a presença de um propósito em existirmos. Sou exigente comigo mesmo, em ser cada vez melhor, em ter um lugar no mundo, poder dizer “eu existo, eu marquei o mundo com os meus atos”. Pergunta agora o senhor por que razão estarei eu a contar-lhe isto. Eu respondo-lhe: quero despedir-me de si. Em menos de 48 horas estarei a embarcar para o Reino Unido numa viagem só de ida. É curioso, creio eu, porque a minha família (inclusive o meu pai) foi emigrante em França (onde ainda conservo parte da minha família) e agora também eu o sou. Os motivos são outros, claro, mas o objetivo é mesmo: trabalhar, ter dinheiro, ter um futuro. Lamento não poder dar ao meu país o que ele me deu.

Junto comigo levo mais 24 pessoas de vários pontos do país, de várias escolas de Enfermagem. Somos dos melhores do mundo, sabia? E não somos reconhecidos, não somos contratados, não somos respeitados. O respeito foi uma das palavras que mais habituado cresci a ouvir. A par dessa também a responsabilidade pelos meus atos, o assumir da consequência, boa ou má (não me considero, volto a dizer, perfeito). Esse assumir de uma consequência, a pro-atividade para fazer mais, o pensar, ter uma perspetiva sobre as coisas, é algo que falta em Portugal.

Considero ridículas estas últimas semanas. Não entendo as manifestações que se fazem que não sejam pacíficas. Não sou a favor das multidões em protesto com caras tapadas (se estão lá, deem a cara pelo que lutam), daqueles que batem em polícias e afins. Mais, a culpa do país estar como está não é sua, nem dos sucessivos governos rosas e laranjas com um azul à mistura: a culpa é de todos. Porquê? Porque vivemos com uma Assembleia que pretende ser representativa, existindo, por isso, eleições. A culpa é nossa que vos pusemos nesse pódio onde não merecem estar. Contudo o povo cansou-se da ausência de alternativas, da austeridade, do desemprego, das taxas, dos impostos. E pedem um novo Abril. Para quê?

O Abril somos nós, a liberdade é nossa. E é essa liberdade que nos permite sair à rua, que me permite escrever estas linhas. O que nós precisamos é que se recorde que Abril existiu para ser o povo quem “mais ordena”. E a precisarmos de algo, precisamos que nos seja relembrado as nossas funções, os nossos direitos, mas, sobretudo, principalmente, com muita ênfase, os nossos deveres. Porém, irei partir. Dia 18 de Outubro levarei um cachecol de Portugal ao pescoço e uma bandeira na bagagem de mão. Levarei a Pátria para outra Pátria, levarei a excelência do que todas as pessoas me deram para outro país. Mostrarei o que sou, conquistarei mais. Mas não me esquecerei nunca do que deixei cá. Nunca.

Deixo amigos, deixo a minha família. Como posso explicar à minha sobrinha que tem um ano que eu a amo, mas que não posso estar junto dela? Como posso justificar a minha ausência? Como posso dizer adeus aos meus avós, aos meus tios, ao meu pai? Eles criaram, fizeram-me um Homem. Sou sem dúvida um privilegiado. Ainda consigo ter dinheiro para emigrar, o que não é para todos. Sou educado, tenho objetivos, tenho valores. Sou um privilegiado.

E é por isso que lhe faço um último pedido. Por favor, não crie um imposto sobre as lágrimas e muito menos sobre a saudade. Permita-me chorar, odiar este país por minutos que sejam, por não me permitir viver no meu país, trabalhar no meu país, envelhecer no meu país. Permita-me sentir falta do cheiro a mar, do sol, da comida, dos campos da minha aldeia. Permita-me, sim? E verá que nos meus olhos haverá saudade e a esperança de um dia aqui voltar, voltar à minha terra. Voltarei com mágoa, mas sem ressentimentos, ao país que, lá bem no fundo, me expulsou dele mesmo.

Não pretendo que me responda, sinceramente. Sei que ser político obriga a ser politicamente correto, que me desejará boa sorte, felicidades. Prefiro ouvir isso de quem o diz com uma lágrima no coração, com o desejo ardente de que de facto essa sorte exista no meu caminho.

Cumprimentos,
Pedro Marques

Pedro Marques, enfermeiro português de 22 anos, emigrou esta quinta-feira, 18 de Outubro de 2012, de madrugada para o Reino Unido, mas antes despediu-se, com esta carta, do Presidente da República